Faz já alguns meses, encontrei a mãe de um grande amigo meu no ónibus. Tivemos uma curta conversa sobre psicologia que acabou me deixando intrigado. Não lembro de todos os detalhes, mas parece que existem dois tipos de pessoas que ocupam dois extremos de uma escala. Numa das pontas estão as pessoas que gostam de agir. Na outra ponta estão as pessoas que gostam de pensar. Lembro que ela me perguntou
- Tu gosta de pensar, não é?Respondi que sim, até pq essa era a resposta mais óbvia pra mim. Só depois, pensando um pouco (rá!), me dei conta que isso não só era verdade como eu provavelmente estava próximo de um dos extremos da escala.
Isso explica bastante coisa. Os meus momentos de "stand-by" por exemplo. Volta e meia eu desligo do mundo exterior e volto toda a minha atenção para uma ideia ou uma imaginação. Quando era piá eu sonhava acordado, imaginando situações e fatos tão fortemente que até hoje as vezes confundo o que foi verdade com o que foi imaginação.
Eu ainda sou desse jeito. Como já li bastante e alimentei bastante essa lata de lixo que é a minha cabeça, consigo passar tanto tempo pensando em algo que me satisfaço só com o pensamento. Talvez por isso nunca tenha conseguido montar uma banda. Em pensamento, nunca erro as notas. :)
Pensando (rá 3!) um pouco, me dou conta que conheço várias pessoas que tem essa característica pensadora, de uma forma ou de outra. Talvez sem chegar ao extremo de sonhar acordado. Mas arrisco a dizer que todo bom nerd tem um pouco dessa característica: gostar de pensar e se satisfazer com o pensamento.
As vezes vejo as pessoas pensantes como se elas estivessem desconectadas do mundo exterior. Fora de sintonia com a realidade. Como se elas pudessem, quando enchessem o saco da realidade, voltar eu seu mundo interior - quase - perfeito e, acima de tudo, só seu. Como se o mundo exterior fosse um vídeo-game ou um objeto que pudesse ser explorado e testado. Como um aquário.
Há alguns minutos, enquanto lavava uma cueca, estava pensando (rá 4!) se isso tinha alguma relação com uma aparente dificuldade que tenho de me envolver de verdade com pessoas, especialmente do sexo oposto. Digo, de gostar profundamente. Tenho impressão que há uma relação. Um pensador não gosta que interfiram no seu pensamento. Digo, não gosta que interfiram na sua liberdade de pensar livremente. E isso envolve não se comprometer com algo do mundo aí fora. Compromisso é perder a capacidade de análise, saindo do racional e indo para o instintivo. Pensadores
têm medo não gostam do instintivo. Acima de tudo, pensadores não gostam de tomar decisões. E gostar envolve tudo isso. Confuso.
É engraçado, mas lembrando um pouco quais são as musas de toda a comunidade nerd (seja lá o que for isso), dá pra traçar um perfil. São mulheres que agem e que tomam decisões, enquanto o bonito fica lá pensando na morte da bezerra. Parece besteira, mas todas essas mulheres idealizadas são pessoas que acima de tudo agem.
Não gosto de admitir, mas eu gosto de gurias assim. São elas que conseguem fazer com que eu saia desse mundo mental asséptico e entre com contato com a realidade. Grande parte das garotas que me relacionei eram assim. Mas por algum motivo e em algum ponto da relação eu sempre entrei em pânico e voltei a minha assepsia imaginária.
Mas as vezes aconteceAcho que foi o Shrek que disse: "ogros são como cebolas". Na verdade todas as pessoas são como cebolas. E duas pessoas, de formas distintas, abriram uma brecha pelas camadas que compõem a minha blindagem intelectual e jogaram toneladas de realidade lá para dentro. Quando saíram, as brechas ficaram.
Passei anos pensando em como fechar a primeira e filtrar toda a realidade para fora. Analisando, analisando, analisando... a história é sempre a mesma. No final ficou uma mega cicatriz.
Cheguei a pensar - como vcs podem ver, eu não tenho jeito - que se eu abrisse uma segunda ferida as coisas melhorariam. Pelo menos eu mudaria de assunto. Teria outra coisa pra pensar e processar. Parece que deu certo. Me sinto um abobado, mas parece que deu certo. Outra pessoa vem do nada e me dá um choque de realidade. Talvez tão forte que eu nem tenha percebido. Fugiu do meu controle (um sob-produto do pensamento) e corri de volta para dentro. Não deu funcionou. Pensei que conseguiria voltar a assepcia mental, mas tudo que encontrei foi uma mente totalmente sem lógica, como um carro desgovernado. Isso nunca me aconteceu...
E aqui estou eu olhando pela janela, pensando, ainda com um sentimento estranho reverberando para lá e para cá, não sei se alimentando aonde...
(violinos)